quarta-feira, janeiro 29, 2003

O pais aonde a pobreza é espetáculo

Hoje assisti ao show 'Um dia de Princesa' em uma dessas emissoras de segunda categoria cujos programas tentam alavancar seus respectivos IBOPES com lágrimas e sexo, cada um em sua devida proporção. Misturar os dois também vale.


A moça de hoje era de Guarulhos, acho eu. Não me recordo o nome dela. Vamos chama-la arbitrariamente é claro de Claudineidi. Casa pequena, apenas um cômodo, que servia de cozinha, quarto e banheiro. A garota de 16 anos aparentemente escrevera a carta influenciada pela amiga, expressando sentimentos dignos dos notáveis globais.


Sua mãe de aproximadamente 30 anos aparentava ter vividos 20 carnavais a mais. Carnavais... (hahaha) 20 carnavais marcados em seu tom de pele, no seu olhar amarelado, amargo e sem foco. Olhar passivo, esperando um rumo.


Naquele dia de semana chuvoso e nublado, Claudineidi viveu as 24 horas de sua vida. Foi conhecer um tipo de vida diferente, quase estranho. Foi ganhar esperança. Diogo Mainardi diria em tom sarcastico '-porque dar a moça tanta esperança, isso sim é horripilante!'
Enfim... Claudineidi foi levada ao 'shópi' de limousine, fez compras em lojas de surfistas e patricinhas, onde o apresentador dizia sem cessar as vendedoras: '-Eu quero minha princesa bem bonita, viu?'.
Em seguida, nossa princessa teve seus belos cabelos alisados pelo shampoo patrocinador do programa, que mostrava uma bela sueca de cabelos lisos em sua embalagem...


Assim, todos os domingos vemos dezenas de Claudineidis ganharem belos cabelos lisos e viverem um dia inesquecivel, um dia cheio de fantasia e ilusões. Conhecerá de perto tudo que não tem e provavelmente jamais terá, a não ser que aproveite a máquina de fazer sorvetes que o patrocinador ofereceu... Contrariando minha ironia e o que muitos dizem, eu até acho positivo esse tipo de programa pois não julgo, apenas tento analisar, pois sou sedento nesse aspecto. E a televisão, todos sabem, é o reflexo da sociedade.


Nosso país possui uma desigualdade imensa, onde os ricos tem um poder maior até que em certos países africanos onde o poder dos ricos é tumultuadoe arriscado pois é gerado com o medo.
Em consequência de tamanha desigualdade , criou-se no Brasil um tipo de acordo doentio imposto pela elite. Essa última adotou a parte pobre do país como uma imagem, como um cachorrinho de estimação.
Assim, os pobres viram espetáculo como nesses shows de princesa.


Eu disse acordo, e como em todo acordo, há um lucro de ambas as partes. Logo, o que os pobres ganham nesse acordo? Paradoxalmente nada de concreto, eles ganham muita esperança. Esperança simbolizada por princessas, por Ronaldinhos... Por Lulas...


Resta a sociedade derrubar esse acordo máquiavélico que faz dos pobres números de IBOPE comprados a lágrimas de princessa e a gols de Ronaldinhos. Todos chorados de emoção pela elite, que acha bonito um favelado virar um milionário penta-campeão...
É preciso dar oportunidades reais e concretas as classes desfavorizadas, sem nada exigir em troca, pois a única coisa que têm a obedecer são seus sentimentos. E roubar um sentimento de alguém é vender seu coração.




Aos 70 anos, serei religioso

Sou relativamente jovem, tenho personalidade em excesso, muita ambição, muita coragem... Ainda consigo de vez em quando passar longos periodos de felicidade como uma criança...
Ainda não tenho conquistas muito nobres na minha vida, nem sentimentalmente, nem materialmente, nem qualquer outro 'ente'.


A idéia de morte para mim ainda é muito abstrata, inimaginavel. Sem sentido. Quando olho garotos jogando futebol, não consigo conceber que estarão todos mortos daqui a 80 anos. E que todos serão esquecidos pouco tempo depois, assim como minha família, ou eu.


Quando penso em morto, me vem a cabeça questões existenciais. Principalmente aquela do sentido da vida... Hahaha... Chega a ser divertida tal pergunta. Hoje, a religião propõe uma resposta (Deus) e a ciencia não. Se um dia a ciência propor uma resposta, a religião desaparecerá e seu 'Deus' também.
Assim, sempre haverá apenas uma proposição de resposta para o sentido da vida. Ou vc acredita ou não. O direito de escolha é 'sim ou não', e não 'qual'.


Hoje sou agnostico, não sei o sentido da vida e acho que dar uma opinião vai além das minhas possibilidades. Não me importo com tamanha ignorância, e não me incomodo de não haver vida após a morte ou um harém com uma dezena de virgens me esperando. Entendo a fraqueza dos religiosos, a rebeldia sem causa dos ateus e o sentido de superioridade (inexistente) dos agnosticos.


Esse 'dane-se' meu em relação ao sentido da vida deve ter uma causa, ligada ao meu estilo de vida... Talvez eu não acredite em vida após a morte porque ainda não conquistei nada de muito importante aqui na Terra e o que conquistei não dou muito valor? Ou será que é porque nunca vi uma pessoa que eu gostasse morrer tornando o paraiso um lugar habitado por desconhecidos? Ou porque nunca tive alguma doença séria?
Envelhecendo, eu conquistarei coisas, verei amigos meus morrendo e ficarei doente. Talvez esse coquetel me deixe mais religioso? Acredito que sim. Vendo os idosos sinto pena daqueles que não são religiosos e vejo uma força impressionante nos que têm fé.


Assim já fiz uma pequena previsão para meu futuro: aos 60 me deprimo pela minha falta de fé que ocasionará uma solidão. Farei analise até os 65 quando começarei a tomar Prozac. E, inevitavelmente, aos 70 entrarei para a igreja Universal e aparecerei no canal 24 rezando na Catredal Mundial da Fé.


Espero morrer de Alzheimer aos 70.

Sou um conhecido da sociedade, porém prefiro ficar anônimo, para que possa me comunicar de maneira mais aberta, sem barreiras.
Vc deve estar se perguntando o porquê desse nome: 'globalizado'?
Me considero um globalizado. Uma pessoa socialmente globalizada. Morei em diversas cidades e experimentei diversas culturas, assim como se degusta um vinho... Em cada uma dessas cidades que morei, engoli a cultura local com voracidade extrema, com o objetivo de entender as pessoas que ali habitavam, e por consequência, entender o mundo um pouquinho melhor...


Considero a capacidade de adaptação a maior qualidade que um homem sábio deveria ter. É uma qualidade vital, que se exercida, da acesso as outras, e não o contrario...
Com cada pessoa, grupo que conheço penso de maneira diferente, existo de maneira diferente. Essa é a melhor forma de se integrar em um ambiente de maneira despercebida e assim entendê-lo.


Os mais apressados dirão que o hábito de ser diversos personagens não é são. Não concordo! Considero que a maneira mais eficaz de agir, convencer na sociedade é se alienando a cada ambiente que vc deseja alguma coisa e por fim, ter controle e voz em todos e assim ter a mente mais aberta possivel...


Esse assunto está me entediando... Depois eu volto a falar disso....